A História das Novelas Brasileiras

 

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Janete Clair, uma lenda da dramaturgia brasileira, já dizia que novela, o próprio nome já define: um novelo, que vai se desenrolando aos poucos. A saga das novelas começou quase ao mesmo tempo que a inauguração da TV no Brasil, com a pioneira TV Tupi. A primeira telenovela produzida pela emissora foi “Sua Vida Me Pertence“, lançada em dezembro de 1951. O curioso é que eram apenas dois capítulos por semana feitos ao vivo e a linguagem ainda era fortemente baseada no teatro. Os atores principais dessa primeira novela do Brasil eram Vida Alves e Walter Foster, com uma participação especial de Lia Borges de Aguiar.

Além de ser a primeira novela brasileira, “Sua Vida Me Pertence” também teve o primeiro beijo na boca da TV brasileira. Vida Alves e Walter Foster foram os protagonistas da cena de beijo. Na época foi quase um escândalo, com a TV Tupi recebendo manifestações de desagrado de muitos telespectadores.

Depois do relativo sucesso da sua primeira novela, a TV Tupi continuou produzindo outras: “Noivado nas Trevas”, “Um Beijo na Sombra“, “Rosas para o Meu Amor“, “Uma Semana de Vida“, “De Mãos Dadas“, “Direto ao Coração” e “Meu Trágico Destino” continuaram com o gênero das telenovelas na TV brasileira. Em 1952, a TV Paulista enrou na briga pela audiência das novelas lançando “Senhora“. A emissora seguiu se firmou como produtora de novelas lançando em seguida “Helena“, “Casa de Pensão” e “Diva“. No mesmo ano nascia a primeira novela carioca, “Sinhá das Dores“, produzida pela TV Continental (canal 9). A Record foi a última a entrar na briga e obteve um grande sucesso com a novela “Éramos Seis“.

A grande parte das novelas eram adaptações literárias de grandes escritores brasileiros, como Machado de Assis, José de Alencar e Erico Verissimo. Apenas a Tupi seguia fazendo novelas com tramas oriundas do teatro, rádio e até romances latinos.

O fato é que as telenovelas acabaram caindo no gosto popular e o formato de dois capítulos semanais logo mudou para o que conhecemos hoje, com capítulos diários. A invenção do video-tape tornou possível tal empreitada, já que não era mais preciso fazer os capítulos ao vivo. Agora bastava gravar e exibir depois. A TV Excelsior foi a pioneira com a novela “2-5499 Ocupado”, que foi ao ar entre julho e setembro de 1963. Foi nessa novela que nasceu um dos maiores pares românticos da TV brasileira: Tarcísio Meira e Glória Menezes.

A TV Tupi foi a segunda a adotar o esquema de capítulos diários depois que se deu conta do sucesso da Excelsior. A Tupi lançou a novela “Alma Cigana“, adaptação de uma história cubana. Mas a Excelsior continua mais eficaz em atrair a audiência e continuava lançando sucessos e consagrando atores. “A Moça Que Veio de Longe” foi o lançamento seguinte da emissora, adaptação de uma trama argentina feita por Ivani Ribeiro que consagrou Hélio Souto e Rosamaria Murtinho.

A Tupi resolveu contra-atacar e escolheu a mais famosa radio-novela brasileira para ser sua proxima novela: “O Direito de Nascer”. A adaptação do romance cubano (mais um!) foi feita por Teixeira Filho e Talma de Oliveira. O sucesso foi tanto que a Tupi, numa genial jogada publicitária, conseguiu encher o Maracanã com fãs que queriam ver os atores da novela.

 

 

A briga ficava boa e isso contribuía cada vez mais para o aprimoramtento das novelas brasileiras, que melhoravam em todos os aspectos. Além de atores, agora diretores também eram reverenciados. “A Deusa Vencida”, da Excelsior, lançou Regina Duarte e consagrou os diretores Walter Avancini e David Grimberg.

Em 1965 um novo jogador entra em cena, a Rede Globo. Após sua inauguração, a emissora carioca planeja enfrentar os donos do gênero novela no Brasil, Tupi e Excelsior. Em uma manobra ousada, a Globo contrata os atores que a Excelsior não levou da TV Rio (que tinha produzido apenas 3 novelas) e da TV Continental. Logo depois comprou a TV Paulista, iniciando sua rede. A estratégia inicial era competir em São Paulo com a TV Record para depois tentar abocanhar a audiência da Tupi e Excelsior. Ainda com o nome de TV Paulista, a Globo produziu “Padre Tião” e “Um Rosto de Mulher” em 1966.

Enquanto isso, a Globo contratava no Rio de Janeiro a cubana Glória Magadan para produzir novelas como as tramas latinas da Era do Rádio. Eram tramas ambiciosas que se passavam em vários lugares do mundo com histórias de nobres ou poderosos. Assim, a primeira novela da TV Globo, canal 4, foi “O Sheik de Agadir” com Henrique Martins como protagonista. Um ano depois (1967), a Globo contrata a escritora que se tornaria uma lenda das telenovelas brasileiras, Janete Clair, que escrevia radionovelas na época.

O trabalho de Janete Clair era o de ajudar Glória Magadan, mas ela acabou substituindo a cubana devido ao sucesso da primeira novela que escreveu sozinha, “Véu de Noiva“. Glória foi demitida e desapareceu do cenário brasileiro de novelas. Enquanto isso a TV Excelsior continuava a todo vapor, com Ivani Ribeiro se consagrando como a maior dramaturga da época: “As Minas de Prata” e “Os Fantoches” são sucessos absolutos. Mas o êxito da Excelsior não parava por aí: “A Pequena Órfã“, escrita por Teixeira Filho em 1968 foi a primeira novela infanto-juvenil de sucesso e “Redenção” conquistou o título de novela mais extensa da TV Brasileira, ficando no ar de 1966 até 1968 e consagrando mais um ator, Francisco Cuoco.

O final dos anos 60 foi marcado por uma tentativa de mudar a linguagem das novelas. Até então se falava um Português correto demais, distante do modo de falar da população. A pioneira dessa vez foi a TV Tupi com a novela “Antônio Maria”, com Sérgio Cardoso e Aracy Balabanian fazendo par romântico. Mas o tiro certeriro que influenciou a mudança da linguagem nas novelas definitivamente foi “Beto Rockfeller”. Na trama, Luiz Gustavo era um trambiqueiro que se passava por milionário. Completavam o elenco principal Bete Mendes (como a namorada) e Irene Ravache (como a irmã). Foi uma das únicas novelas na história a ter uma continuação anos depois devido ao seu enorme sucesso: “A Volta de Beto Rockfeller“.

O ponto negativo do final da década de 60 foi a crise econômica da Excelsior. Mesmo enfrentando problemas financeiros a emissora continuou lançando novelas de qualidade, como “A Muralha” de Ivani Ribeiro, lançada em 1968 (sim, a Globo fez outra vesão mais atual da novela em forma de minissérie). À beira da falência, a Excelsior ainda lançou em 1970 “Sangue do Meu Sangue” de Vicente Sesso, com Fernanda Montenegro e Tônia Carreiro.

Enquanto a Excelsior saía de cena, a Globo continuava crescendo. Também no ano de 1970, a emissora decidiu expandir sua produção abrindo três horários para a exibição de novelas: 19h, 20h e 22h. As novelas escolhidas para estreiar na nova grade de horários foram “Pigmalião 70”, “Véu de Noiva” e “Verão Vermelho”.

 

 

A Excelsior fechou as portas e a Record teve espaço para tentar reafirmar suas novelas. Depois de comprar equipamentos mais modernos e contratar profissionais de ponta, se destaca em 1971 com “Os Deuses Estão Mortos“, de Lauro César Muniz, mas pára por aí. Nenhuma novela da emissora conseguiu alcançar sucesso semelhante. Por outro lado, a TV Tupi soube aproveitar o espaço deixado pela Excelsior e começou a brigar diretamente com a Globo pela audiência das novelas. A TV Tupi iria à falência em 1980, mas na década de 70 conseguiu superar a Globo no número de telespectadores de algumas novelas. Depois de contratar Ivani Ribeiro da falida Excelsior, a Tupi lançou sucessos seguidos: “Mulheres de Areia“, “A Viagem“, “O Profeta” e “Aritana” numa parceria que durou 6 anos com Ivani. “Ídolo de Pano“, “O Machão” e “Éramos Seis” (essa última de Silvio de Abreu e Rubens Ewald Filho) completam os sucessos da Tupi na década de 70.

A Globo deu um duro golpe na Tupi, contratando Cassiano Gabus Mendes que saiu da emissora depois de 20 anos e várias novelas. Traição ou não, Cassiano estreiou na Globo com “Locomotivas” (1977) e “Anjo Mau” (1976). Janete Clair depois do sucesso “Véu de Noiva” teve carta branca da Globo e passou a escrever uma novela atrás da outra, emplacando muitos sucessos inesquecíveis: “Irmãos Coragem“, “Selva de Pedra“, “Pecado Capital“, “O Astro“, entre outras. Dias Gomes, marido de Janete Clair, escrevia tramas recheadas de realismo fantástico e também emplacou sucessos e grandes personagens, como o Odorico Paraguaçu de “O Bem Amado“. Fechando a gloriosa década de 70, outras novelas foram eternizadas na mente dos telespectadores: “Cabocla“, “Escrava Isaura“, “Dancin’ Days” e “Gabriela“.

Com a falência ad Tupi no começo dos anos 80, a TV Bandeirantes aproveita a oportunidade para criar seu núcleo de novelas. Contrata boa parte dos profissionais da Tupi e coloca no ar a novela “Cara a Cara“. Mas o primeiro grande sucesso da emissora seria a novela “Os Imigrantes“, de Benedito Ruy Barbosa. Mas o núcleo de novelas da Bandeirantes não foi pra frente. Sob a direção de Walter Clark, a emissora parou de produzir novelas afim de se capitalizar para pagar suas dívidas.

Com o fim da Tupi o governo colocou na mesa duas concessões para redes de TV. Com isso, surgiram o SBT e a Rede Manchete. O SBT entrou no ar em 1981 e no começo importava novelas mexicanas até começar a ter suas próprias produções nacionais como “Jerônimo” e “Joana“, mas sem atingir o nível de qualidade da Globo. Já a Rede Manchete tentou acertar a fórmula até alcançar o sucesso com “Dona Beija” (1986). “Kananga do Japão“, também de Wilson Aguiar Filho, continuou a fila de novelas bem-sucedidas da emissora.

Os destaques da Globo na década de 80 ficam para “Vale Tudo” e “Que Rei Sou Eu ?“, duas novelas que consagraram de vez o tom de humor das novelas das sete. “Guerra dos Sexos” trouxe Paulo Altran e Fernanda Montenegro para a tv. Ivani Ribeiro depois de alguns anos sem produzir nada é contratada pela Globo e etréia com “Final Feliz“, mas depois se dedica quase que exclusivamente a refilmagens de novelas de sua autoria e de outros escritores. Outro que volta para a Globo é Benedito Ruy Barbosa, que adapta o romance “Sinhá Moça“. Outros que começam a despontar na Globo são Walter Negrão, Aguinaldo Silva, Manoel Carlos e Lauro Cezar Muniz.

Mas talvez um dos maiores marcos das novelas brasileiras tenha sido “Roque Santeiro“. Lançada em 1985, a novela de Dias Gomes é lembrada com unanimidade até hoje.

Os anos 90 foram marcados por uma concorrência acirrada entre as emissoras de TV. “Tieta” tinha fechado o ano de 1989 com uma grande audiência para a Globo, mas logo depois veio “Pantanal“, da Rede Manchete. A própia Globo havia recusado o projeto de Benedito Ruy Barbosa por não acreditar que uma novela com a natureza como fundo poderia dar audiência. Foi um engano fatal pois pela primeira vez desde os anos 70 uma emissora conseguia ter mais audiência que a Rede Globo.

 

 

A Globo tentou conter os danos e contratou de volta Benedito Ruy Barbosa para que não houvesse mais sustos. Afinal, o autor já tinha dado dois baques na Globo, antes com “Os Imigrantes” e agora com “Pantanal”. Benedito acabou fazendo três novelas nos anos 90, “Renascer” (1993), “O Rei do Gado” (1996) e “Terra Nostra” (1999).

Depois do mega-sucesso de Pantanal, a Manchete ficou ambiciosa e preparou outra superprodução: “A Fantástica História de Ana Raio e Zé Trovão“. O projeto era inovador, pois a cada semana a equipe filmaria em uma cidade brasileira diferente acompanhando a vida dos peões de rodeio. O custo, como se pode imaginar, era astronômico e embora a novela tenha alcançado um relativo sucesso, não se comparou a “Pantanal”. O resultado foi uma crise financeira que quase acabou com a Manchete. Os Bloch chegaram a vender a emissora à IBF, mas como a mesma não quitou o pagamento, a Rede Manchete continuou sob a batuta dos Bloch até falir de vez em 1999. Porém, antes de sair de cena, boas novelas foram produzidas pela Manchete, como “Amazônia“, “Xica da Silva” e “Mandacaru“. “Brida” foi a última novela da emissora e quase não foi concluída. Seu desfecho contou com uma edição de cenas antigas e narração em off. “Pantanal” começou a ser reexibida e marcou a mudança da Manchete para Rede TV!.

O SBT aproveitou a saída de cena da Manchete e abocanhou vários profissionais do núcleo de produção de novelas, como Nilton Travesso, Henrique Martins, David Grimberg, entre outros. A intenção era produzir novelas totalmente nacionais apostando em remakes de novelas de grande audiência. O sucesso veio com “Éramos Seis”, seguido de “As Pupilas do Senhor Reitor“,”Sangue do Meu Sangue“, “Os Ossos do Barão” e outras.

Com a boa fase, o SBT decidiu somar mais dois horários de novelas à sua grade de programação. Agora seriam três novelas diferentes no ar e foram lançadas “Antônio Alves, Taxista“, “Razão de Viver” e “Colégio Brasil“. Porém o projeto ousado trouxe um rombo financeiro para a emissora, obrigando o SBT a procurar parceiros. A primeira parceria foi com a Telefe, emissora argentina e rendeu o sucesso infanto-juvenil “Chiquititas“, que ficou 5 anos no ar. A segunda parceria é com a Televisa e coloca no ar “Fascinação“, de Walcyr Carrasco. Ao contrário da parceria com a Telefe, essa nova parceria trouxe prejuízos para o SBT. Nilton Travesso não gostou de trabalhar com os métodos da Televisa e vai para a Rede Bandeirantes levando consigo outros profissionais do SBT. Na nova emissora funda um núcleo de produção de novelas que estréia com “Serras Azuis” em 1997, mas que perde força internamente na emissora e acaba se desfazendo. Metade vai para a rede Record e a outra Metade para a Rede Globo.

 

 

A Globo, aliás, continuou a produzir novelas de destaque como “Rainha da Sucata“, “A Próxima Vítima“, “Barriga de Aluguel”, “Vamp“, “Quatro por Quatro” e “Por Amor“, fechando com “Laços de Família” já em 2000.

Atualmente a Globo ainda lidera a audiência quando o assunto é novela e suas produções seguem imbatíveis. “O Clone“, “Mulheres Apaixonadas“, “Duas Caras“, “Páginas da Vida” e “Caminho das Índias” fizeram sucesso na faixa das novelas de horário nobre da emissora. Mas o SBT continua apostando em novelas e tem no ar atualmente uma produção própria, “Vende-se Um Véu de Noiva“. Já a Rede Record tem um núcleo fixo de produção que continua contratando profissionais e atores renomados. Conta com duas produções prórprias no ar, “Poder Paralelo” e “Bela, a Feia“. Resta a torcida para a Rede TV! e Bandeirantes entrarem na boa briga onde quem ganha somo nós telespectadores e amantes das melhores novelas do mundo.

 

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